quinta-feira, 7 de abril de 2011

A Desserviço da Sociedade



A revista Veja deu sua contribuição para que tragédias como a que aconteceu hoje, em Realengo, sejam uma ameaça iminente a todos nós.

Na edição n° 1925, que saiu dia 05 de outubro de 2005, a revista Veja trouxe em sua capa: "Referendo das armas: 7 razões para votar NÃO - A proibição vai desarmar a população e fortalecer o arsenal dos bandidos".

Em meu post anterior, quando me referi ao papel da imprensa na conscientização da população, quis dizer exatamente o oposto do que fez a Veja num momento que poderia ter sido positivamente decisivo para os cidadãos brasileiros.
A pergunta do referendo era a seguinte:
"O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?"
Segundo a revista Veja e a maioria da população - orientada por reportagens publicadas como a citada anteriormente - NÃO.
A matéria, inclusive, sugeria uma reformulação para a pergunta: "O Estado brasileiro pode tirar das pessoas o direito de comprar uma arma de fogo?" - o que, provavelmente, ganhou uma conotação de censura, de cerceamento do livre arbítrio de pessoas como Wellington Menezes de Oliveira.

O povo teve nas mãos a possibilidade de se defender de forma democrática e consciente.
Contudo, prevaleceu a lei do "olho por olho, dente por dente".
Eu nunca ouvi um caso entre cidadãos comuns, em que armas de fogo estivessem envolvidas, e o resultado tenha sido positivo.
Ao contrário, não nos faltam exemplos de acidentes com armas entre crianças brincando, adolescentes inconsequentes e disparos acidentais enquanto um adulto fazia sua limpeza.
A ideia de que alguém está seguro tendo uma arma de fogo em sua posse é um engano.
O perigo se potencializa.
A ideia de que os cidadãos devem se armar para combater a bandidagem é absurda.
A polícia existe para isso.
Sem a venda de armas, o combate ao seu contrabando poderia ser mais eficiente.
No entanto, de que adianta combater o tráfico de armas, se elas são vendidas em lojas?

O desserviço prestado pela revista Veja resume bem o papel da "imprensa" no processo de informação e formação de opinião.

A tragédia de hoje deve nos fazer pensar.
O assassino de hoje está morto.
Quantos potenciais assassinos estão vivos, com suas armas guardadas em casa?

E o que é pior: legalmente.

http://veja.abril.com.br/051005/p_076.html

Em nome de Deus



Triste demais para dizer qualquer coisa.
Assustador demais para tentar entender.

O que aconteceu, esta manhã, numa escola em Realengo, foge à minha capacidade de compreensão.
Estou "acostumada" a ouvir notícias deste tipo vindas de outros países - dos Estados Unidos, na maioria das vezes.
Aqui no Brasil, tão "acostumado" às balas perdidas, aos roubos, aos sequestros, massacres protagonizados por franco-atiradores não costumam ser notícia.
Hoje, foi diferente.
Hoje, um rapaz matou, aleatoriamente, 11 jovens e feriu outros 13.
Um bilhete deixado pelo assassino tem claras influências fanático-religiosas.
Ela menciona "pessoas impuras", "adultério", "Jesus" e "perdão".
Em seu texto, considera-se "casto e puro" e deve ser "banhado e envolto num lençol branco" em seu sepultamento.
O banho de sangue justifica-se em sua "inocente" alma lavada.
O fanatismo religioso apregoa a intolerância e justifica barbáries em nome de Deus.
O preconceito e a discriminação são suas bases sustentadoras.
Pecado é a palavra de ordem.

Há que se ter cuidado com o que se diz.
Há que se pensar antes de falar.
Há de se considerar as diferenças - e as igualdades - entre os homens antes de elevar a voz num discurso segregador.

A intolerância vem ganhando força entre nós.
Tratada como assunto "menor", pode resultar em tragédias como a de hoje em Realengo.

Não falam tanto em nome de Deus?
Onde se encaixa o mandamento "Amar ao próximo como a nós mesmos"?
E "Não usar o santo nome de Deus em vão"?
A Bíblia tem suas mensagens distorcidas e mal compreendidas.

Em nome de Deus, há séculos, homens justificam suas guerras.
Em nome de Deus, inocentes foram mortos.
Em nome de Deus, continua se pregando o ódio, a intolerância, o preconceito.

Agora, é tarde para as crianças mortas em Realengo.
Mas, para um futuro melhor, sempre é tempo.