Em sua - inacreditável - décima primeira edição, o Big Brother Brasil parece firmar-se como o maior desserviço prestado por um canal de tv aberto, na minha opinião.
Obviamente inspirado no livro "1984", do inglês George Orwell, que retrata um regime de governo totalitário e repressivo, numa sociedade oligárquica, onde o Grande Irmão observa os cidadãos através de câmeras atentas a qualquer desobediência, o BBB assemelha-se ao original de forma ainda mais contundente.
No livro, a história contada é a de um funcionário do governo, cuja vida não tem grande significado ou importância, designado a falsificar e alterar documentos públicos da literatura, de maneira que o governo pareça sempre correto em suas atitudes - ou seja, uma distorção da realidade.
No programa, alguns cidadãos comuns, muitas vezes - na maioria delas - inexpressivos e desinteressantes, prestam-se ao papel de fantoches do interesse da emissora sedenta por ibope e cifras.
Tendo cada passo registrado por várias câmeras espalhadas pela "grande gaiola", essas pessoas enfrentam provas humilhantes - que beiram à tortura física e psicológica muitas vezes -, conflitos, intrigas, brigas e festas etílicas, enchendo os olhos de seus observadores com o mais puro espetáculo da degradação humana.
Em casa, em frente à tv, os espectadores acreditam estar assistindo a um reality show, ou seja: a um show de realidade. Balela. Nada do que acontece ali pode ser considerado vida real. A não ser que estivéssemos ainda nos tempos do Império Romano, assistindo às barbáries no Coliseu - onde, espetáculos banhados em sangue mereciam os aplausos de uma plateia fervorosa.
O BBB é um reflexo do que há de mais sórdido e equivocado no ser humano. E enaltece isso.
Assim como o personagem Wisnton Smith distorcia a realidade para vangloriar um governo repressor e assassino, os participantes do Big Brother Brasil distorcem a realidade, transformando suas rotinas numa espécie de "novela da vida real", para enriquecer - ainda mais - uma instituição absolutamente despreocupada em cumprir seu papel - de veículo de comunicação - e emburrecer uma audiência cada vez mais carente de informação construtiva - que vem se acostumando à desinformação e ao mau gosto, por falta de opção.
Assim como em "1984", a transformação da realidade, vigiada pelo olho que tudo vê, massacra os cidadãos e camufla interesses escusos que, sob nenhum aspecto, têm o crescimento do povo como objetivo.
A tv aberta é um veículo de informação de massa. O maior de todos.
Presente na maioria dos lares no Brasil, deveria ter por princípio - senão por obrigação - a formação de opinião e a sedimentação dos Valores Culturais do país. No entanto, seu papel na sociedade vem se desvirtuando, a passos largos, sem levar em consideração os milhões de espectadores que tiram dali - às vezes, exclusivamente - suas informações e visões de mundo.
O papel da tv aberta - democraticamente disponível para todos - é muito sério.
Ou, pelo menos, deveria ser.
